sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Se me amas, não chores

Se conhecesses o mistério imenso do Céu onde agora vivo, este horizonte sem fim, esta luz que tudo reveste e penetra, não chorarias, se me amas!
Estou já absorvido no encanto de Deus, na sua infindável beleza.
Permanece em mim o teu amor, uma enorme ternura que nem tu consegues imaginar.
Vivo numa alegria puríssima.
Nas angústias do tempo, pensa nesta Casa onde um dia estaremos reunidos para além da morte, matando a sede na fonte inesgotável da alegria e do amor infinito.
Não chores, se verdadeiramente me amas!
Santo Agostinho

Minha Terra

Ó minha terra na planície rasa, 
Branca de sol e cal e de luar, 
Minha terra que nunca viu o mar 
Onde tenho o meu pão e a minha casa... 

Minha terra de tardes sem uma asa, 
Sem um bater de folha... a dormitar... 
Meu anel de rubis a flamejar, 
Minha terra mourisca a arder em brasa! 

Minha terra onde meu irmão nasceu... 
Aonde a mãe que eu tive e que morreu, 
Foi moça e loira, amou e foi amada... 

Truz... truz... truz... Eu não tenho onde me acoite, 
Sou um pobre de longe, é quase noite... 
Terra, quero dormir... dá-me pousada! 

Florbela Espanca, in "Charneca em Flor" 

domingo, 5 de dezembro de 2010

Quem fala a verdade...

Era um coronel de Artilharia muito distinto e educado, casado com uma senhora da aristocracia francesa e que tinha um fraco pela bebida. Contava-se que, quando morria alguém, aparecia no velório a distribuir copos de aguardente pelas mulheres que, a troco de dinheiro, velavam o morto pela noite fora. A certa altura tão bêbado estava ele como as carpideiras e acabava tudo em grande cantoria. Este oficial foi chamado ao Ministro da Guerra, que o aconselhou a ter melhor comportamento, sob pena de ser sujeito a processo disciplinar. Perfilado em frante do Ministro, ele respondeu:
- Pode V. Ex.ª congratular-se pelo facto de no exército português só haver dois bêbados: eu e V.Ex.ª.
Claro que teve que pedir a passagem à reforma...

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Pouca terra

A estação de caminho-de-ferro fica a 12km da minha cidade. Nos anos 30, um rapaz nosso vizinho pediu uma bicicleta emprestada e foi à estação ver o que nunca tinha visto: o comboio. Tinha 18 anos.

Isabéis

As minhas filhas ainda se lembram da minha tia Violante, pois não há muitos anos que nos deixou. Dizia ela, a nossa tia, que as miúdas faladoras, espertas e vivaças eram as chamadas "serigaitas". Foi este adjectivo que ela pôs à nossa Isabel I: a resposta na ponta da língua, a graça e um certo ar de delicioso atrevimento caracterizavam-na. Pois tem agora uma digna sucessora, com o mesmo à vontade e a graça dos três aninhos, uma autêntica "serigaita". Apenas as voz tem uma ou duas notas mais agudas...
A Isabel II segue-lhe os passos.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Um filme antigo

Ela tem no quintal as rosas mais lindas que floriram nesta Primavera/Verão. São de uma cor indefinida, uma mistura de amarelo, laranja, salmão e vermelho.
Posso dizer que nunca vi mais bonitas, se fossem a concurso ganhavam sem favor, tal como as rosas "Mrs. Miniver" no filme antigo, elas seriam as rosas "Mrs. Pires".

terça-feira, 13 de julho de 2010

A galinha gorda

Era um rapaz do campo, corado, moreno, de cabelo preto e encaracolado, cheio de vida e com a força dos 20 anos; estava a cumprir o serviço militar num batalhão de província e era impedido de um oficial, cuja família era, na altura, apenas composta por pai e filha adolescente.
Sempre bem disposto, costumava cantarolar no quintal as "saias" lá da aldeia:

Minha vida são castanhas
Cozidas com beldroegas
Eu a saber-te das manhas
E não sei pra que mas negas

Pai e filha comiam do restaurante, mas com o correr do tempo a comida tornou-se intragável, aquele menú sempre igual e a saber ao mesmo; dizia a filha que sabia a água da loiça.
Acabavam por jantar torradas, café com leite e alguma fruta. O jantar lá ia para o impedido, que depois de ter comido o rancho ainda conseguia engolir um segundo jantar inteirinho.
Engordou, este já de si corpulento rapaz. Brilhavam-lhe as faces coradas e os olhos, de um azul muito claro. Acabou o serviço militar, depediu-se e foi para a terra, a poucos quilómetros da cidade.
Passados alguns anos, apareceu em casa da jovem, entretanto já casada: trazia um cesto e lá dentro vinha uma grande e gorda galinha, com um ar tão saudável como ele.
-Trouxe a galinha para a menina comer, mais o seu marido. Andei a engordá-la, como a menina me engordou a mim. Que lhe faça bom proveito!