domingo, 26 de abril de 2009

As botas do Caneco

Volto sempre à Nazaré, quando penso na minha infância. Era lá que fazia anualmente as minhas férias na praia, até aos meus 10 anos. Todas as famílias que iam a banhos tinham um banheiro, contratado para toda a época. O nosso era o Caneco.
O Caneco, também conhecido por Passarinho, era um homem alto e magro, de rosto tisnado pelo sol e pelo sal. A sua mão grande e ossuda, onde a minha se perdia, levava-me até às ondas, onde pulava, divertida.
Durante o tempo frio, como a praia não lhes dava sustento, o Caneco e a sua mulher, a Arminda, vinham até às localidades onde residiam os seus fregueses. Lembro-me de um Inverno dos anos 40 em que eles estiveram em nossa casa: o Caneco vinha descalço e isso afligia muito os meus Pais, pois a nossa cidade era bastante fria e chuvosa. O meu Pai insistiu com ele para calçar umas botas da tropa, mas ele nem um passo conseguia dar com elas. Foram então os dois a uma sapataria e o meu Pai comprou-lhe umas botas de borracha mais macias, julgando ser mesmo aquilo de que o banheiro precisava. Mas nem pensar! Ao lado do meu Pai, na rua, vinha o bom do Caneco com as botas na mão, rindo e conversando com aquele sotaque de pesacador da Nazaré, banheiro no Verão e sempre amigo do seu amigo. Levou as botas, mas nunca as calçou.

sábado, 25 de abril de 2009

Eu não acredito em bruxas, mas...

A Cooperativa Operária era uma instituição da minha cidade situada perto da minha casa. Era uma mercearia em ponto grande com loja de fazendas também, e tinha que ser sócio para fazer compras lá. Pagava-se em "guichets" através de uma caderneta onde era registada a despesa e ao fim de algum tempo podia acumular-se uma determinada quantia e fazerem-se as compras de graça. Fui lá muitas vezes porque o meu pai era sócio.
A Cooperativa também tinha uma padaria com forno de lenha, onde os sócios podiam mandar cozer pão, bolos, assados, o que quisessem. A velha Emília das Castanhas levava com frequência uma grande panela de barro para cozer no forno, o que despertou a curiosidade dos padeiros. Um dia pareceu-lhes que de dentro da panela vinha um som de chiar: abriram a panela e viram, com grande espanto, que lá dentro estavam sapos vivos. Um horror! A velha Emília há muito que tinha fama de bruxa, e de facto a suspeita confirmava-se! Foi assunto para lavar e durar, na minha rua e na cidade inteira. Eu conhecia a velha e sempre que passava ao pé dela tremia e arrepiava-me. Não que eu acredite em bruxas, mas lá que as há, há. E bem perto de mim...

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Tingerinas

Circular enviada pelo subchefe da Polícia ao Reitor do Liceu Nacional de minha cidade, corria a década de 1940:
"Ex.mo Sr Reitor, informo que os alunos desse estabelecimento de insino saltem o muro da parede do quintal, roubem as tingerinas e comem-nas, em proveito próprio".
O mesmo subchefe, ao ser chamado um dia para tomar conta da ocorrência de um alegado suicídio, disse aos seus subordinados:
- Ponham o cadáver à sombra, que o cadáver já está morto.
Na altura em que não era permitido que as pessoas se juntassem na rua a conversar, ele aproximou-se de dois homens e disse:
- Psst, é proibido andar parado!
No jantar de homenagem que marcou o início da sua reforma, um dos oradores, que por acaso era padre e professor, propôs um brinde ao "dedicado servidor da causa pública, que escreve chefe com um x". Tenho dito.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

O carteiro tocou duas vezes

A menina fazia 9 anos nesse dia. Como de costume, o carteiro entregou a correspondência, mas nem um só postalinho havia para a aniversariante. Quase chorou, lamentando ninguém lhe ter escrito. Passados alguns minutos, eis o carteiro de volta. Chamou a menina e disse-lhe não ter reparado que, no fundo do saco, havia um postal para ela. Era um postal ilustrado (daqueles em pensamento) que ele tinha comprado na loja que havia ali perto e que tinha escritas as seguintes palavras:
- Muitos parabéns do carteiro amigo Alexandre José Carrapiço.
Custou tão pouco fazer feliz a menina de 9 anos!

terça-feira, 14 de abril de 2009

O filho do burro

Morava na mesma rua que eu, era piconeiro, vivia com a mãe, a Senhora Rosa, e tinha um burro que carregava os sacos do picão. Bebia, bebia muito e era raro o dia em que não subia a rua quase de gatas. Entrava para casa e o burro entrava também. Dizia, para quem o queria ouvir:
- Este burro é mais que meu pai!
Por isso o meu Pai chamava-lhe "O filho do burro".

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Carmencita

A meio da década de 40, ouvia-se muito a Amália Rodrigues na rádio e o filme "Capas negras", do qual ela era protaganista, tinha grande sucesso. Eu sabia as letras dos fados de cor (tinha-as pedido pelo Correio para a Valentim de Carvalho), mas havia um que adorava cantar: "Carmencita".
Da coberta de uma mala fiz um xaile, punha uma flor vermelha ao peito, soltava o cabelo e pintava os lábios para fora, para a boca parecer maior. Aparecia detrás das cortinas da sala, para cantar para um espectador apenas: o meu Pai, que lia o jornal. Nessa altura, já a minha Mãe estava doente e a minha tia andava com a lida da casa a seu cargo.
- Pai, deixe o jornal e bata palmas!
- Não sabes cantar outra coisa? Já começo a estar farto da Carmencita...
Mudei o reportório, mas depois ele já não tinha tempo para me ouvir.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

A Pequena Pátria

Para o bem e para o mal, a minha cidade é a minha Pátria. Aqui nasci, mas não sei se será por isso que me sinto tão ligada a esta terra.
Tem tudo a ver com a cor do céu, tão azul, com o Sol que a banha toda, desde as torres da Sé ao Convento de Santo António, com o branco das casas, que no Verão nos faz franzir os olhos. É com isto que eu me identifico. Gosto de sair de manhã e percorrê-la desde a Praça da República ao Rossio. Nas tardes de Verão o pôr do Sol é laranja e lilás e à noite o luar põe-na prateada.
É a minha cidade, a minha casa, o meu refúgio, a minha pequena Pátria.

Uma noite de Verão

A noite estava quente, e sentiam-se bem no quintal, sentados no muro.
Na berma da estrada, mesmo em frente da casa, um militar pedia boleia; seriam umas onze da noite, poucos carros passavam e nenhum parava ao sinal do rapaz. Meteu conversa com ele e soube que o soldado tinha que apanhar o comboio da meia-noite, em Vila Velha do Ródão, para estar no quartel de Castelo Branco a horas. Pontualmente, nem mais um minuto de atraso. Mas o tempo passava, e o rapaz não arranjava quem o levasse.
Então decidiu agir: entrou em casa e foi telefonar a uma pessoa amiga que tinha um táxi, pedindo-lhe que levasse o soldado ao seu destino; no dia a seguir fariam contas.
O militar seguiu o seu caminho, não sem antes agradecer:
- Que um dia alguém faça bem aos seus filhos como o Sr. me fez.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

A enciclopédia

O professor de História era um homem sisudo, de feições duras e idade acima dos 50. Vestia à antiga, colarinho e punhos engomados, chapéu de diplomata e uma pérola na gravata. Falava muito baixo, e nunca se exaltava. Tinha sido Reitor naquele Liceu uma década atrás.
Numa turma de rapazes, o 3.º B, pediu ao chefe de turma que fosse à Biblioteca buscar um livro. O aluno demorou algum tempo, e apareceu acompanhado pela bibliotecária, que parecia surpreendida e mesmo a esconder um risinho:
- Sr. Doutor, eu não tenho na Biblioteca a escolopendra!
Todos se riram, e o próprio professor esboçou um sorriso; ele tinha falado no seu tom de voz grave baixo. O aluno não quis perguntar, porque teve vergonha de admitir que não tinha percebido o pedido, que afinal era apenas uma enciclopédia!

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Traje de Luces

A minha cidade, nos anos 40, tinha espectáculos de touros com algma frequência. O meu Pai era um grande aficcionado e, numa tarde em que toureava um espada mexicano, o Carlos Arruza, assitimos todos num camarote (todos menos o meu irmão, que não gostava de touradas). Ao nosso lado estava a família de um médico muito célebre na cidade, cuja mulher andava sempre no último grito da moda, talvez um pouco exageradamente, para a idade dela. Naquela tarde trazia um vestido encarnado e um turbante da mesma cor.
O meu Pai, crítico como sempre, achou que a senhora estava vestida para tourear, e eu e ele divertimo-nos a imaginar como seria se ela descesse à arena para tourear...A minha Mãe, dizia ele, metia a dita senhora num chinelo, com o seu fato saia e casaco castanho e beige, com mala e sapatos a condizer. Eu concordei: nesse tarde, o Carlos Arruza triunfou na arena, mas na assistência a estrela foi a minha Mãe!