segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Aquela Noite

Subimos, amor, àquela igreja
Onde não há quem nos veja
E que é tão perto do céu!
Depois, enlaçados,
Ficámos extasiados
Tu e eu.
Amor...depois...tu sabes,
Um beijo e outro beijo
E sempre o mesmo desejo
De nunca mais acabar!
E a lua que nos espreitou
Com certeza que ficou
Com esta convicção:
De duas bocas unidas
Duas almas, duas vidas
Formando um só coração.

Maria Clotilde
4/10/1952
Para ti, António, lembrando uma noite que ficou para sempre gravada na minha alma

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Sonhador

Meu amor,
amo-te muito!
Se as palavras que te digo
não to fazem entender, 
é porque nasceu comigo
o sonho de me perder!
De noite sonho contigo, 
e não vou aqui dizer
os meus sonhos e tormentos!
De dia sou teu amigo,
pois não me deixo envolver
pelos tristes pensamentos!
A lua fala comigo
contigo falou a lua
que ilumina a nossa rua!
Mas, quando o sol brilhar
sei que já não vou sonhar
com a linda imagem tua!
Eu gosto da noite, amor,
da noite p'ra te abraçar
da noite p'ra te beijar,
da noite... p'ra me perder...
Eu gosto de ti, amor,
porque és todo o meu desejo
porque é só a ti que beijo,
Porque ao surgir o alvor,
só a ti eu sei dizer:
beija-te o ... teu amor!

António
23/9/1952

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Mãe

Mãe que Levei à Terra
Mãe que levei à terra
como me trouxeste no ventre,
que farei destas tuas artérias? 
Que medula, placenta,
que lágrimas unem aos teus
estes ossos? Em que difere
a minha da tua carne?
Mãe que levei à terra
como me acompanhaste à escola,
o que herdei de ti
além de móveis, pó, detritos
da tua e outras casas extintas?
Porque guardavas
o sopro de teus avós?
Mãe que levei à terra
como me trouxeste no ventre,
vejo os teus retratos,
seguro nos teus dezanove anos,
eu não existia, meu Pai já te amava.
Que fizeste do teu sangue,
como foi possível, onde estás?
António Osório, in 'A Ignorância da Morte'

domingo, 17 de janeiro de 2016

PARA TI

Não sei dizer-te como em mim nasceu
toda esta ternura, todo o meu querer,
não sei amor, nem o quero saber,
só sei apenas que...aconteceu!

Não sei dizer-te porquê este amor
me enche toda numa doçura calma.
num louco desejo que me abraça a alma
e que dá ao coração meigo calor.

Não sei amor...não sei se isto que sinto
é amor...mas sei que não te minto
ao dizer que a teu lado sou feliz...

Não sei definir esta ternura
que me faz amar-te com loucura
e querer-te como jamais alguém te quis.

Maria Clotilde
22-9-1952

segunda-feira, 27 de julho de 2015

O MEU SOL
( Para o António)

Andei na vida ao sabor da sorte
sofri, chorei, fui escrava da dor
não sabia sorrir, não conhecia amor
e quantas vezes desejei a morte!

À noite, sozinha, meditava enfim,
e era triste e negro o futuro,
sombras se adensavam no meu céu escuro
tudo de bom morrera para mim!

Mas, de repente, o sol apareceu
desfez-se a treva, clareou o céu,
acordou a vida de um longo torpor!

E o sol que ilumina esta minha ilusão,
e põe risos de oiro no meu coração.
só podes ser tu, só tu, meu amor!

Maria Clotilde
18-9-52

sábado, 27 de junho de 2015

Ambição ( À Tininha)

Não!                                  
Eu sei que não foi sonho,
nem visão,
quem me guiou para ti!
Andava pelas ruas
errante e vago,
passos perdidos,
vida sem afago, olhos presos
na sombra da noite que avançava,
quando uma luzinha
que no firmamento
bem perto da lua
estava,
me disse:
" O teu caminho é por aqui!"
E eu, louco,
segui-lhe o rasto,
beijei-lhe os passos,
cheio de alento
que a luz que dela vinha
me inundava!
Não olhei para trás,
pisei sonho, imagens,
atravessei o lago das miragens,
passei a floresta dos gnomos
e bati-lhe à porta.
Entrei
e só me quedei
quando te vi!
Morto de cansado
ébrio de sede,
a teus pés ajoelhei
e pedi que me desses de beber!
Tu sorriste
Levantaste-te
deste-me a mão,
ajudaste-me
a arrastar os pés p'lo chão!
Depois...
Deste-me a boca,
que beijei com fúria louca
e sinto que adormeci!
Ao acordar,
ébrio ainda de sede de beijos
rompia o alvorecer!
E agora,
que a toda a hora
o coração
me diz que não foi sonho nem visão,
agora,
que a mesma sede me atormenta
e surge a dor,
diz-me que não foi sonho,
meu amor!

Setembro de 1952
António