A noite estava quente, e sentiam-se bem no quintal, sentados no muro.
Na berma da estrada, mesmo em frente da casa, um militar pedia boleia; seriam umas onze da noite, poucos carros passavam e nenhum parava ao sinal do rapaz. Meteu conversa com ele e soube que o soldado tinha que apanhar o comboio da meia-noite, em Vila Velha do Ródão, para estar no quartel de Castelo Branco a horas. Pontualmente, nem mais um minuto de atraso. Mas o tempo passava, e o rapaz não arranjava quem o levasse.
Então decidiu agir: entrou em casa e foi telefonar a uma pessoa amiga que tinha um táxi, pedindo-lhe que levasse o soldado ao seu destino; no dia a seguir fariam contas.
O militar seguiu o seu caminho, não sem antes agradecer:
- Que um dia alguém faça bem aos seus filhos como o Sr. me fez.
quinta-feira, 9 de abril de 2009
segunda-feira, 6 de abril de 2009
A enciclopédia
O professor de História era um homem sisudo, de feições duras e idade acima dos 50. Vestia à antiga, colarinho e punhos engomados, chapéu de diplomata e uma pérola na gravata. Falava muito baixo, e nunca se exaltava. Tinha sido Reitor naquele Liceu uma década atrás.
Numa turma de rapazes, o 3.º B, pediu ao chefe de turma que fosse à Biblioteca buscar um livro. O aluno demorou algum tempo, e apareceu acompanhado pela bibliotecária, que parecia surpreendida e mesmo a esconder um risinho:
- Sr. Doutor, eu não tenho na Biblioteca a escolopendra!
Todos se riram, e o próprio professor esboçou um sorriso; ele tinha falado no seu tom de voz grave baixo. O aluno não quis perguntar, porque teve vergonha de admitir que não tinha percebido o pedido, que afinal era apenas uma enciclopédia!
Numa turma de rapazes, o 3.º B, pediu ao chefe de turma que fosse à Biblioteca buscar um livro. O aluno demorou algum tempo, e apareceu acompanhado pela bibliotecária, que parecia surpreendida e mesmo a esconder um risinho:
- Sr. Doutor, eu não tenho na Biblioteca a escolopendra!
Todos se riram, e o próprio professor esboçou um sorriso; ele tinha falado no seu tom de voz grave baixo. O aluno não quis perguntar, porque teve vergonha de admitir que não tinha percebido o pedido, que afinal era apenas uma enciclopédia!
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Traje de Luces
A minha cidade, nos anos 40, tinha espectáculos de touros com algma frequência. O meu Pai era um grande aficcionado e, numa tarde em que toureava um espada mexicano, o Carlos Arruza, assitimos todos num camarote (todos menos o meu irmão, que não gostava de touradas). Ao nosso lado estava a família de um médico muito célebre na cidade, cuja mulher andava sempre no último grito da moda, talvez um pouco exageradamente, para a idade dela. Naquela tarde trazia um vestido encarnado e um turbante da mesma cor.
O meu Pai, crítico como sempre, achou que a senhora estava vestida para tourear, e eu e ele divertimo-nos a imaginar como seria se ela descesse à arena para tourear...A minha Mãe, dizia ele, metia a dita senhora num chinelo, com o seu fato saia e casaco castanho e beige, com mala e sapatos a condizer. Eu concordei: nesse tarde, o Carlos Arruza triunfou na arena, mas na assistência a estrela foi a minha Mãe!
O meu Pai, crítico como sempre, achou que a senhora estava vestida para tourear, e eu e ele divertimo-nos a imaginar como seria se ela descesse à arena para tourear...A minha Mãe, dizia ele, metia a dita senhora num chinelo, com o seu fato saia e casaco castanho e beige, com mala e sapatos a condizer. Eu concordei: nesse tarde, o Carlos Arruza triunfou na arena, mas na assistência a estrela foi a minha Mãe!
domingo, 29 de março de 2009
O jardim
Quando a minha geração era adolescente, o jardim siginificava muito: era sinónimo de escapadelas, de leitura, de convívio, de namoricos, de divertimento, enfim, de tudo o que a gente nova gosta ainda. Era um jardim bonito, arborizado, com um lago, bancos, recantos discretos, parque infantil e, em tempos, também com biblioteca.
Há cerca de dois anos, resolveram modificá-lo, com o Projecto Pólis. Aqui na cidade, todos pensaram : "sim senhor, é capaz de melhorar e devolver à cidade um jardim a que os mais novos não tinham grande ligação. Porque não?" Como diria o meu Pai, é para bem do povo e não se paga nada. Vamos a isto! E começaram as obras; não sei bem quanto tempo demoraram, mas finalmente o jardim ficou pronto!
Mas oh desilusão, surgiu um espaço incaracterístico, foram cortadas árvores, os bancos desapareceram, assim como o lago e o parque infantil, e em seu lugar nada surgiu de positivo , de prático, digno de uma cidade. Um espaço vazio de memória, onde não apetece ir e onde o poeta foi escondido, para que não veja o que fizeram ao seu jardim. Já lá não passo há largos meses, e acho que não voltarei lá. Desgosta-me ver o meu jardim dos anos 40 transformado em lixeira, mas em todo o caso, um espaço para o Popov, o lindo Labrador da minha neta, brincar, correr, dar largas à sua insaciável vontade de se divertir, como todo o cão que se preza.
Ao menos ele que disfrute do defunto jardim...
Há cerca de dois anos, resolveram modificá-lo, com o Projecto Pólis. Aqui na cidade, todos pensaram : "sim senhor, é capaz de melhorar e devolver à cidade um jardim a que os mais novos não tinham grande ligação. Porque não?" Como diria o meu Pai, é para bem do povo e não se paga nada. Vamos a isto! E começaram as obras; não sei bem quanto tempo demoraram, mas finalmente o jardim ficou pronto!
Mas oh desilusão, surgiu um espaço incaracterístico, foram cortadas árvores, os bancos desapareceram, assim como o lago e o parque infantil, e em seu lugar nada surgiu de positivo , de prático, digno de uma cidade. Um espaço vazio de memória, onde não apetece ir e onde o poeta foi escondido, para que não veja o que fizeram ao seu jardim. Já lá não passo há largos meses, e acho que não voltarei lá. Desgosta-me ver o meu jardim dos anos 40 transformado em lixeira, mas em todo o caso, um espaço para o Popov, o lindo Labrador da minha neta, brincar, correr, dar largas à sua insaciável vontade de se divertir, como todo o cão que se preza.
Ao menos ele que disfrute do defunto jardim...
quinta-feira, 26 de março de 2009
As lições de piano
Teria uns nove ou dez anos quando comecei a ter aulas de música para aprender a tocar piano. Tudo muito bonito, muito "benzoca", só que não gostei mesmo nada. Era um professor já de idade, que tinha por hábito usar um pequeno ponteiro nas aulas de solfejo para bater nas mãos dos alunos, quando estes se enganavam. Doía, doía a valer e devo confessar que me desagradava o facto de o meu lhe pagar para ele me bater nos nós dos dedos; não fazia sentido!
Disse em casa que não continuaria a ir às lições de piano.
- Que pena! - disseram tanto a minha mãe como o meu pai, mais ela do que ele, porque se eu não gostava, ele também não. Também soube na altura que tencionavam comprar um piano para mim, um piano que era de umas senhoras irmãs que iam viver para Lisboa e queriam vender o velho piano de cauda por um preço muito acessível, porque eram amigas da minha família há muitos anos.
Tudo ficou sem efeito, uma vez que eu tinha dito categoricamente que não queria aprender música. Arrependi-me mais tarde: será que hoje teria ali na sala um Steinway, no qual as minhas netas pequenas tocariam, acompanhadas à guitarra pelos primos?
Disse em casa que não continuaria a ir às lições de piano.
- Que pena! - disseram tanto a minha mãe como o meu pai, mais ela do que ele, porque se eu não gostava, ele também não. Também soube na altura que tencionavam comprar um piano para mim, um piano que era de umas senhoras irmãs que iam viver para Lisboa e queriam vender o velho piano de cauda por um preço muito acessível, porque eram amigas da minha família há muitos anos.
Tudo ficou sem efeito, uma vez que eu tinha dito categoricamente que não queria aprender música. Arrependi-me mais tarde: será que hoje teria ali na sala um Steinway, no qual as minhas netas pequenas tocariam, acompanhadas à guitarra pelos primos?
domingo, 22 de março de 2009
O charrueco
Tinha a garagem no rés-do-chão do prédio ao lado do meu e lá guardava o "Ford" de calça arregaçada que usava principalmente para se deslocar à Serra de S. Mamede, onde tinha uma quinta. Quando punha o carro a trabalhar, ainda na garagem, os prédios tremiam. "Lá vai ele sair" e, porque era realmente um espectáculo, eu ia à janela, para ver o que hoje daria um "sketch" humorístico de primeira: de guarda-pó quase até aos pés, o cónego dava à manivela com o "capot" levantado durante largos minutos. O carro rugia, para logo a seguir ficar em silêncio. Novamente a manivela, e finalmente um pulo para dentro do carro.
Nessa altura, já se tinham juntado uma dúzia de garotos que empurravam o carro até ele pegar completamente; sentado ao volante, o cónego mandava de lá castanhas secas, que os miúdos apanhavam no ar e do chão com grande alarido.
Por isso se dizia que o charrueco do padre andava a castanhas secas...
Nessa altura, já se tinham juntado uma dúzia de garotos que empurravam o carro até ele pegar completamente; sentado ao volante, o cónego mandava de lá castanhas secas, que os miúdos apanhavam no ar e do chão com grande alarido.
Por isso se dizia que o charrueco do padre andava a castanhas secas...
segunda-feira, 16 de março de 2009
A Pinga-amor
Ela estava internada na Casa de Saúde, convalescente de uma operação ao apêndice. Fui lá vê-la e levei-lhe um livro da famosa Colecção Azul, chamado "Ama-se uma vez na vida". Entrei no quarto sem bater e deparei com o namorado (naquela altura já era ex-namorado) agarrado às mãos dela a chorar. Ela tinha-o trocado por outro, um mais velho. E já ia no 3.º, nesse espaço de tempo em que esteve doente; todos os dias mudava. Eu sabia disso mas não contava que o mais antigo de todos (namoravam-se desde o 1.º ano do Liceu) ficasse naquele estado. Não sabia o que fazer nem o que dizer. Ele tirou-me o livro das mãos, mandou-lho à cara e depois foi-se embora a chorar. Minutos depois entrou a nova paixão e tudo foram sorrisos
Apanhei o livro do chão: "Ama-se uma vez na vida" não era de todo o livro indicado para a minha amiga.
Apanhei o livro do chão: "Ama-se uma vez na vida" não era de todo o livro indicado para a minha amiga.
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