" O filho do burro
terça-feira, 5 de julho de 2022
Morava na mesma rua que eu, era piconeiro e vivia com a mãe, a senhora Rosa. Tinha um burro que carregava os sacos de picão. Bebia, bebia muito e era raro o dia em que não subia a rua quase de gatas. Entrava para casa e o burro entrava também. Dizia para quem o queria ouvir: - Este burro é mais que meu pai! ( isto porque o ajudava no trabalho). Por isso o meu pai chamava-lhe o filho do burro!
Piconeiro era o homem que fazia o picão. O picão era feito de ramos de árvores, os mais fininhos, depois das podas da Primavera. Debaixo da terra ardiam em fogo lento e depois servia para as braseiras. Comprava-se ao quilo nas carvoarias ou aos piconeiros que o vendiam pelas ruas em sacos que os burros carregavam."
sexta-feira, 16 de julho de 2021
Porque sei que gostam, dou-vos outro texto da minha mãe. Este tem música.
“ Os índios de Lagos
No Verão de 1996, em Lagos, tive ocasião de em pleno largo do D,. Sebastião ver um agrupamento índio peruano. Depois de almoço, quando fomos tomar café, já os índios andavam por ali a preparar o espectáculo. O António que tanto gostava de música sul-americana, ficou entusiasmado e toda a tarde passámos a falar no que seria o espectáculo da noite. Jantámos mais cedo e lá fomos para ter lugar o mais próximo e confortável possível. Sentados mesmo à frente lá esperámos algum tempo e finalmente eles apareceram. Vestidos a rigor, com os instrumentos característicos da cultura índia. O António, que tão pouco era de mostrar emoções, estava contentíssimo. Tudo o que esperávamos aconteceu. As canções nossas conhecidas, naquela noite algarvia, eram magia para os nossos ouvidos, “ Recuerdos de Ipacaraí”, “Alma Llanera”, “Cielito Lindo”, enfim… todas as que nós tanto gostávamos. Fizeram um intervalo. E qual não é o meu espanto quando vi o António dirigir-se a um deles e falar-lhe. O índio mostrava entender e assentia com a cabeça. _ O que foste dizer-lhe? – Espera e verás. Depois percebi porque eles dedicaram-lhe “ Pássaro Chogui”, “ El condor passa” e “Índia”, esta última cantada em dialecto. Foi maravilhoso ouvi-los e sentir a alegria do António. Comprou-lhes os discos todos e acho que ainda levaram brinde. Quando se despediram, um olhar para nós: - Mil gracias!
(eram índios incas)."
quinta-feira, 3 de junho de 2021
Para esta tarde de sábado, quase de Verão, este texto da minha mãe, tão divertido. Ela tinha uma provecta idade mas mantinha o bom gosto!
" Homens bonitos
Quem vê cinema, séries e até as vulgares novelas, quem lê revistas e jornais, enfim, quem vê o mundo com olhos de ver, depara com uma coisa digna de reparo e de pasmo: homens lindos às dezenas e centenas por todo o lado. Mesmo agora dei com um no programa da Oprah, é o Nate, o decorador, o embaixador dela para as campanhas de ajuda que ela promove. Não sei se haverá mais bonito, hoje então vinha de fato completo e gravata. Mas então nos anúncios aparecem as caras mais espantosas, os sorrisos, enfim, é impossível descrevê-los. Na música também os há, o Justin Timberlake, o Bono, o pequeno espanhol Alexandre Sanz, nem falo já no cinema, nesses nem é bom falar. Tenho que lhes dedicar uma crónica só a eles... Há uma série que é "Sem rastro" onde um actor chamado Eric Close espalha charme e elegância. Há no mundo da moda um que faz o anúncio do perfume " Polo" da Ralph Lauren que é, ele próprio, jogador de polo, que também está na lista, é argentino. A lista não acabava, voltarei a este assunto quando estiver melhor documentada. Tenho já uma provecta idade mas o bom gosto ainda me resta. Lembrei-me agora do actor português que faz de Luís Bernardo Valença no "Equador", também merece referência na lista dos mais bonitos. É de apelido Duarte, não me lembro do primeiro nome."
Maria Clotilde Eustáquio.
Portalegre, 10/03/2009
Actualização: o argentino do perfume Polo chama-se Nacho Figueras e o actor português, Filipe Duarte, infelizmente já falecido.
quarta-feira, 17 de março de 2021
A propósito do anúncio Coca-Cola Light que regressou com outro protagonista , trago-vos hoje este escrito da minha mãe.
" Os galãs
Os filmes antigos de Hollywood que passam nos canais de cinema da TV Cabo e também na RTP Memória, têm a grande vantagem, entre outras, de me fazerem recordar os bonitos actores do meu tempo que tantas vezes me fizeram suspirar. Eram homens fisicamente elegantes, sempre de rosto magro e sorriso de estarrecer. E depois eram heróis românticos que seduziam a bela rapariga que com eles contracenava. Casavam e eram felizes para sempre... Mas se houvesse drama à mistura era melhor e se não acabasse bem também não me importava que eu não sou muito adepta de finais piegas.
Filmes da 2ª Guerra com uma história de amor pelo meio eram os meus preferidos.
Agora, neste momento, estou a ver o Charlton Heston no " Major Dundee" e aquela farda azul dos nortistas sempre aprumados e impecáveis fica-lhe mesmo bem. Não foi assim? E isso o que tem? Eram heróis e bastava. Pertenciam ao 7º de Cavalaria que chegava no momento certo.
Que grandes filmes que fizeram sonhar gerações de jovens! Abençoados porque nos fizeram felizes.
Maria Clotilde Eustáquio, Fevereiro de 2009"
.
Janeiro é o mês da minha mãe. Nasceu e morreu em Janeiro e foi também em Janeiro que escreveu este texto que hoje partilho convosco.
"Compagnons de route
A minha paixão por livros começou aí pelos 6 ou 7 anos quando, retida em casa com tosse convulsa e já sabendo ler, fui presenteada pelo meu irmão Lito com um livro todos os dias. Eram da colecção Manecas, coloridos, de leitura fácil porque de letras grandes e folhas de poucas linhas (umas dez por página). Lembro-me bem de " A ilha dos cozinheiros", "O aprendiz de feiticeiro", "O anão amarelo" para além dos clássicos. Depois, por volta da entrada para o Liceu, 11 anos, li romances que não percebi bem e que só mais tarde aprendi a gostar. Entre eles bastantes de Érico Veríssimo. Isto à mistura com "O Mosquito", o" Sr. Doutor" o " Pim-Pam-Pum" e até os " Texas Jack" do meu irmão. Seguiram-se "Os Três Mosqueteiros" em versão antiga e em português do séc. XIX e os outros a seguir, " O Visconde de Bragelonne" e "20 anos depois". Depois foi tudo o que apanhei à mão. Indiscriminadamente. Bom e mau. Há então a idade do romance cor-de-rosa que por acaso eram de capa azul, Max du Veuzit, Mary Love, Magali. Por essa altura tinha grandes amigos rapazes que me emprestavam os de capa e espada de que gostei especialmente. Há uma idade, 16, 17, por aí fora em que lia compulsivamente. Dois e três livros por dia. Durante o serão, no quarto, com ao candeeiro quase dentro da cama. Aí são os autores portugueses. Os proibidos e também romances de jornalistas, Guedes de Amorim, Manuel Martinho, Guedes de Dion, Carmem de Figueiredo e Etelvina Lopes de Almeida. Não parei mais. O meu namoro com o António também foi com troca de livros. Nessa altura a colecção " Livros do Brasil". Não posso citar um preferido, foram tantos! Tal como os filmes não sou capaz de escolher só um. Não poderia viver sem livros à minha volta, são parte de mim e todos, todos mesmo, me ensinaram muito. A vida, tal como a considero hoje, foi-me em grande parte dada por aquilo que li. Não resisto, quando vou a Lisboa, a visitar a Bertrand. Venho sempre com mais um carregamento que francamente já não sei onde pôr.
Livros. livros, companheiros de uma vida!"
Maria Clotilde Eustáquio
Portalegre, 31/1/2009
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021
Hoje é um grande dia para a América e para o mundo, dizemos adeus ao coiso, vai e não voltes! e eu partilho convosco um escrito da minha mãe de há precisamente 12 anos, 20/01/2009, da tomada de posse de Obama que ela seguiu na CNN e relatou com pormenor num dos seus cadernos. É um excerto, já que o escrito é longo e descreve todos os momentos desse dia que ela viveu intensamente.
" A Posse ( Mister President, sir)
...Barack Obama já tomou posse como Presidente dos Estados Unidos da América e está agora a fazer o discurso de Estado. Viva Obama!!! A câmara mostrou agora um velho negro americano em cujo rosto as lágrimas caíam. Acho que é bem o símbolo daqueles que no passado sofreram as humilhações que todos conhecemos... "
terça-feira, 9 de fevereiro de 2021
"As Festas da Cidade 1950
Agora que passaram as festas da cidade que este ano foram molhadas, lembro aqui os festejos de 1950 que duraram todo o mês de Maio. Foram os 400 anos de elevação a cidade. Tal como acontece sempre, as Primaveras em Portalegre não primam pelo clima ameno e nesse ano de 1950 também assim foi. Não choveu mas houve frio e lembro-me que usei um casaquinho de malha sempre que saía. O vem, o suão, fez voar alguns arranjos que enfeitavam o jardim público ( um castelo com 2 torres situava-se onde é agora a Cadislegre. Era feito em material que facilmente o vento derrubava mas lá se foi aguentando). No velho estádio da Fontedeira ( onde é hoje o hotel) fizeram-se serões de variedades com cantores portugueses e alguns brasileiros e espanhóis. Lembro-me de ver actuar os irmãos Andrade ao piano e canto lírico ( um deles, o Luís, é o pai da Serenella Andrade). Também lá vi cantar o Francisco José, o José António, Maria Clara e muitos mais, apresentados pelo Artur Agostinho. É dessa altura, no estádio, o desafio entre o Sporting e julgo que um misto do Desportivo e Estrela. Vi jogar o Travassos e o Albano, Vasques e Jesus Correia, grandes jogadores internacionais. Também jogava nessa altura o Carlos Canário que era natural de Portalegre e irmão do sr. Canário, barbeiro que durante muitos anos cá veio a casa cortar o cabelo ao António ( também o cortou à Isabel Maria em pequenina). Também actuou no teatro Portalegrense o Orfeão e a Tuna Universitária de Coimbra. Foi oferecido aos estudantes uma recepção e baile de gala mas com muita pena minha, não fui. Enfim, foi um mês em cheio e parece que não houve dia nenhum que eu ficasse em casa. Esse Maio de 50 foi de festa na cidade e foram, sem dúvida, as maiores comemorações que a câmara organizou. Lembro que em 1940 ou 41 também houve festejos na cidade, não sei a que propósito, mas tenho ideia de uma verbena ( Verbena Azul) feita no pátio do Liceu e que constava de bailes e actuações de cantores e fadistas. Também recordo que nessa mesma altura desfilaram pelas ruas marchas populares e tenho ideia de duas: a da Fábrica Robinson e da Lanifícios. Parece-me que era a da Lanifícios que tinha trajes de saia preta e blusa amarela e na cabeça um chapéu em forma de castelo. Uma das marchas era dedicada à cidade e ainda me lembro bem dela. Desses festejos recordo a “ Aldrabona” e os “ Beduínos”."
Maria Clotilde Eustáquio
Portalegre, 2 de Junho de 1997
sábado, 21 de maio de 2016
É neste pequeno bloco encadernado a cabedal que estão escritos os poemas de amor dos meus pais que acabo de publicar. A letra muito miudinha do meu pai não tornou a tarefa fácil mas creio ter conseguido transcrever correctamente. Também não importa, o que importa é tê-los publicado e assim torná-los eternos. Acabou-se o caderno mas o blog continua, aqui iremos pondo os escritos da minha mãe e talvez também uma coisa minha que já escrevi há anos mas que me apetece partilhar. Por aqui continuaremos, sempre em nome da mãe.
sexta-feira, 20 de maio de 2016
Ao António
Sózinha neste mundo
Um dia me encontrei!
A alma escancarada à ventania
O coração calado
E espezinhado
A vida sem norte e sem guia.
Na alma
O travo amargo
Duma dura provação
Mais pobre que o pobre
A quem negam o pão!
Sózinha!
Sem o terno apoio
Dum coração amigo
Cumprir sem culpas
Um duro castigo,
E se não pequei, até...
Só a Deus agradeço
Por me ter dado
! Dádiva sem preço!
A chama alta de uma grande fé!
Mas um dia,
Alguém surgiu no meu caminho
E a minha vida mudou de cor!
Voltei a viver
E a querer
Ser alguém p'ra esse amor!
Hoje vivo e sei porque vivo,
Sei que quero viver
A minha vida.
Embora tenha sido uma desiludida, Hoje quero viver
Para ao pé dele ser
Uma estrela, uma nuvem, uma tarde,
Qualquer coisa, enfim!
Que seja igual a mim, Tudo para ele
Eu que era... nada...!!
5-11-952
Maria Clotilde
Um dia me encontrei!
A alma escancarada à ventania
O coração calado
E espezinhado
A vida sem norte e sem guia.
Na alma
O travo amargo
Duma dura provação
Mais pobre que o pobre
A quem negam o pão!
Sózinha!
Sem o terno apoio
Dum coração amigo
Cumprir sem culpas
Um duro castigo,
E se não pequei, até...
Só a Deus agradeço
Por me ter dado
! Dádiva sem preço!
A chama alta de uma grande fé!
Mas um dia,
Alguém surgiu no meu caminho
E a minha vida mudou de cor!
Voltei a viver
E a querer
Ser alguém p'ra esse amor!
Hoje vivo e sei porque vivo,
Sei que quero viver
A minha vida.
Embora tenha sido uma desiludida, Hoje quero viver
Para ao pé dele ser
Uma estrela, uma nuvem, uma tarde,
Qualquer coisa, enfim!
Que seja igual a mim, Tudo para ele
Eu que era... nada...!!
5-11-952
Maria Clotilde
quarta-feira, 13 de abril de 2016
Saudades
À Tininha
Partiste e tudo ficou!
Saudades e sonhos
correm pela vida em atropêlo!
E dos beijos que te dou
Nada mais resta que o gosto
Amargo do meu anelo!
Beijo,
Saudades infindas,
E onde andais?
E tu, boca que eu desejo,
Porque não voltas ainda,
Porque não me beijas mais?
Lábios vermelhos,
Ardentes,
Rubros de desejo,
Se quereis seguir um conselho
vinde, antes que caia doente
Pela fome do vosso beijo!
Não demores,
vem depressa, amor!
Embora eu saiba que choras
Sempre que um beijo te dou
Eu quero beijar-te agora,
Abraçar-te a toda a hora,
Por nos beijos tal fervor
Que não possa o coração
Ouvir a voz da razão
E da minha alma que chora!
António
Partiste e tudo ficou!
Saudades e sonhos
correm pela vida em atropêlo!
E dos beijos que te dou
Nada mais resta que o gosto
Amargo do meu anelo!
Beijo,
Saudades infindas,
E onde andais?
E tu, boca que eu desejo,
Porque não voltas ainda,
Porque não me beijas mais?
Lábios vermelhos,
Ardentes,
Rubros de desejo,
Se quereis seguir um conselho
vinde, antes que caia doente
Pela fome do vosso beijo!
Não demores,
vem depressa, amor!
Embora eu saiba que choras
Sempre que um beijo te dou
Eu quero beijar-te agora,
Abraçar-te a toda a hora,
Por nos beijos tal fervor
Que não possa o coração
Ouvir a voz da razão
E da minha alma que chora!
António
quarta-feira, 30 de março de 2016
Eternidade
Um dia,
Quedei-me a olhar
A minha sombra,
Que morria
Nas manchas que o luar
Deixava sobre a terra.
E a sombra era tão fria,
Que eu tremia
E levantei a gola do casaco!
Fiquei a olhá-la,
Perdido no tempo e no espaço
E tive medo de mim!
Pois a a sombra era tão fria,
Tão negra e tão esguia,
Que mais parecia
O cipreste de um jardim...
Mas nesse dia, eu,
Era pior que a sombra que morreu!
Fui há dias visitar
Aquele triste lugar,
Negro e gélido,
Onde a sombra aparecia
E morria,
Sob as manchas do luar!
Quedei-me a olhá-la
E não vi a sombra do meu eu
Que morreu!
Ouvi cantos e gorgeios,
Tive anelos e anseios,
Vivi sonhos e tormentos,
E os mais belos pensamentos
À minha volta se adensaram!
Pasmei por me ver assim,
Tão alegre, tão diferente,
Olhei o céu no poente,
P'ra saber ao que devia
Tão grande transformação!
Saltava-me o coração
E nos olhos dançava um querubim
Que troçava e ria,
E trazia
Na mão um nome: Tininha!
Então baixei o rosto,
E na sombra clara do sol posto
Vi a tua sombra unida à minha.
António
8 - 10- 1952
Quedei-me a olhar
A minha sombra,
Que morria
Nas manchas que o luar
Deixava sobre a terra.
E a sombra era tão fria,
Que eu tremia
E levantei a gola do casaco!
Fiquei a olhá-la,
Perdido no tempo e no espaço
E tive medo de mim!
Pois a a sombra era tão fria,
Tão negra e tão esguia,
Que mais parecia
O cipreste de um jardim...
Mas nesse dia, eu,
Era pior que a sombra que morreu!
Fui há dias visitar
Aquele triste lugar,
Negro e gélido,
Onde a sombra aparecia
E morria,
Sob as manchas do luar!
Quedei-me a olhá-la
E não vi a sombra do meu eu
Que morreu!
Ouvi cantos e gorgeios,
Tive anelos e anseios,
Vivi sonhos e tormentos,
E os mais belos pensamentos
À minha volta se adensaram!
Pasmei por me ver assim,
Tão alegre, tão diferente,
Olhei o céu no poente,
P'ra saber ao que devia
Tão grande transformação!
Saltava-me o coração
E nos olhos dançava um querubim
Que troçava e ria,
E trazia
Na mão um nome: Tininha!
Então baixei o rosto,
E na sombra clara do sol posto
Vi a tua sombra unida à minha.
António
8 - 10- 1952
quinta-feira, 3 de março de 2016
Juro
Ao António
Eu não te queria afirmar
Pois sei que juras de amor
Quase não têm valor
E não vale a pena jurar.
Mas para mim é diferente
Quero jurar porque é melhor,
P'ra saberes que o meu amor
Durará eternamente!
Ouve amor: juro por Deus,
Pela luz dos olhos meus,
Por tudo te quero jurar,
Que esta boca que tu beijas,
Onde quer que tu estejas,
Nenhum outro há-de beijar!
Maria Clotilde
7- 10-1952
Eu não te queria afirmar
Pois sei que juras de amor
Quase não têm valor
E não vale a pena jurar.
Mas para mim é diferente
Quero jurar porque é melhor,
P'ra saberes que o meu amor
Durará eternamente!
Ouve amor: juro por Deus,
Pela luz dos olhos meus,
Por tudo te quero jurar,
Que esta boca que tu beijas,
Onde quer que tu estejas,
Nenhum outro há-de beijar!
Maria Clotilde
7- 10-1952
segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016
Aquela Noite
Subimos, amor, àquela igreja
Onde não há quem nos veja
E que é tão perto do céu!
Depois, enlaçados,
Ficámos extasiados
Tu e eu.
Amor...depois...tu sabes,
Um beijo e outro beijo
E sempre o mesmo desejo
De nunca mais acabar!
E a lua que nos espreitou
Com certeza que ficou
Com esta convicção:
De duas bocas unidas
Duas almas, duas vidas
Formando um só coração.
Maria Clotilde
4/10/1952
Para ti, António, lembrando uma noite que ficou para sempre gravada na minha alma
Onde não há quem nos veja
E que é tão perto do céu!
Depois, enlaçados,
Ficámos extasiados
Tu e eu.
Amor...depois...tu sabes,
Um beijo e outro beijo
E sempre o mesmo desejo
De nunca mais acabar!
E a lua que nos espreitou
Com certeza que ficou
Com esta convicção:
De duas bocas unidas
Duas almas, duas vidas
Formando um só coração.
Maria Clotilde
4/10/1952
Para ti, António, lembrando uma noite que ficou para sempre gravada na minha alma
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016
Sonhador
Meu amor,
amo-te muito!
Se as palavras que te digo
não to fazem entender,
é porque nasceu comigo
o sonho de me perder!
De noite sonho contigo,
e não vou aqui dizer
os meus sonhos e tormentos!
De dia sou teu amigo,
pois não me deixo envolver
pelos tristes pensamentos!
A lua fala comigo
contigo falou a lua
que ilumina a nossa rua!
Mas, quando o sol brilhar
sei que já não vou sonhar
com a linda imagem tua!
Eu gosto da noite, amor,
da noite p'ra te abraçar
da noite p'ra te beijar,
da noite... p'ra me perder...
Eu gosto de ti, amor,
porque és todo o meu desejo
porque é só a ti que beijo,
Porque ao surgir o alvor,
só a ti eu sei dizer:
beija-te o ... teu amor!
António
23/9/1952
segunda-feira, 18 de janeiro de 2016
Mãe
Mãe que Levei à Terra
Mãe que levei à terra
como me trouxeste no ventre,
que farei destas tuas artérias?
Que medula, placenta,
que lágrimas unem aos teus
estes ossos? Em que difere
a minha da tua carne?
como me trouxeste no ventre,
que farei destas tuas artérias?
Que medula, placenta,
que lágrimas unem aos teus
estes ossos? Em que difere
a minha da tua carne?
Mãe que levei à terra
como me acompanhaste à escola,
o que herdei de ti
além de móveis, pó, detritos
da tua e outras casas extintas?
Porque guardavas
o sopro de teus avós?
como me acompanhaste à escola,
o que herdei de ti
além de móveis, pó, detritos
da tua e outras casas extintas?
Porque guardavas
o sopro de teus avós?
Mãe que levei à terra
como me trouxeste no ventre,
vejo os teus retratos,
seguro nos teus dezanove anos,
eu não existia, meu Pai já te amava.
Que fizeste do teu sangue,
como foi possível, onde estás?
como me trouxeste no ventre,
vejo os teus retratos,
seguro nos teus dezanove anos,
eu não existia, meu Pai já te amava.
Que fizeste do teu sangue,
como foi possível, onde estás?
António Osório, in 'A Ignorância da Morte'
domingo, 17 de janeiro de 2016
PARA TI
Não sei dizer-te como em mim nasceu
toda esta ternura, todo o meu querer,
não sei amor, nem o quero saber,
só sei apenas que...aconteceu!
Não sei dizer-te porquê este amor
me enche toda numa doçura calma.
num louco desejo que me abraça a alma
e que dá ao coração meigo calor.
Não sei amor...não sei se isto que sinto
é amor...mas sei que não te minto
ao dizer que a teu lado sou feliz...
Não sei definir esta ternura
que me faz amar-te com loucura
e querer-te como jamais alguém te quis.
Maria Clotilde
22-9-1952
toda esta ternura, todo o meu querer,
não sei amor, nem o quero saber,
só sei apenas que...aconteceu!
Não sei dizer-te porquê este amor
me enche toda numa doçura calma.
num louco desejo que me abraça a alma
e que dá ao coração meigo calor.
Não sei amor...não sei se isto que sinto
é amor...mas sei que não te minto
ao dizer que a teu lado sou feliz...
Não sei definir esta ternura
que me faz amar-te com loucura
e querer-te como jamais alguém te quis.
Maria Clotilde
22-9-1952
segunda-feira, 27 de julho de 2015
O MEU SOL
( Para o António)
Andei na vida ao sabor da sorte
sofri, chorei, fui escrava da dor
não sabia sorrir, não conhecia amor
e quantas vezes desejei a morte!
À noite, sozinha, meditava enfim,
e era triste e negro o futuro,
sombras se adensavam no meu céu escuro
tudo de bom morrera para mim!
Mas, de repente, o sol apareceu
desfez-se a treva, clareou o céu,
acordou a vida de um longo torpor!
E o sol que ilumina esta minha ilusão,
e põe risos de oiro no meu coração.
só podes ser tu, só tu, meu amor!
Maria Clotilde
18-9-52
( Para o António)
Andei na vida ao sabor da sorte
sofri, chorei, fui escrava da dor
não sabia sorrir, não conhecia amor
e quantas vezes desejei a morte!
À noite, sozinha, meditava enfim,
e era triste e negro o futuro,
sombras se adensavam no meu céu escuro
tudo de bom morrera para mim!
Mas, de repente, o sol apareceu
desfez-se a treva, clareou o céu,
acordou a vida de um longo torpor!
E o sol que ilumina esta minha ilusão,
e põe risos de oiro no meu coração.
só podes ser tu, só tu, meu amor!
Maria Clotilde
18-9-52
sábado, 27 de junho de 2015
Ambição ( À Tininha)
Não!
Eu sei que não foi sonho,
nem visão,
quem me guiou para ti!
Andava pelas ruas
errante e vago,
passos perdidos,
vida sem afago, olhos presos
na sombra da noite que avançava,
quando uma luzinha
que no firmamento
bem perto da lua
estava,
me disse:
" O teu caminho é por aqui!"
E eu, louco,
segui-lhe o rasto,
beijei-lhe os passos,
cheio de alento
que a luz que dela vinha
me inundava!
Não olhei para trás,
pisei sonho, imagens,
atravessei o lago das miragens,
passei a floresta dos gnomos
e bati-lhe à porta.
Entrei
e só me quedei
quando te vi!
Morto de cansado
ébrio de sede,
a teus pés ajoelhei
e pedi que me desses de beber!
Tu sorriste
Levantaste-te
deste-me a mão,
ajudaste-me
a arrastar os pés p'lo chão!
Depois...
Deste-me a boca,
que beijei com fúria louca
e sinto que adormeci!
Ao acordar,
ébrio ainda de sede de beijos
rompia o alvorecer!
E agora,
que a toda a hora
o coração
me diz que não foi sonho nem visão,
agora,
que a mesma sede me atormenta
e surge a dor,
diz-me que não foi sonho,
meu amor!
Setembro de 1952
António
Eu sei que não foi sonho,
nem visão,
quem me guiou para ti!
Andava pelas ruas
errante e vago,
passos perdidos,
vida sem afago, olhos presos
na sombra da noite que avançava,
quando uma luzinha
que no firmamento
bem perto da lua
estava,
me disse:
" O teu caminho é por aqui!"
E eu, louco,
segui-lhe o rasto,
beijei-lhe os passos,
cheio de alento
que a luz que dela vinha
me inundava!
Não olhei para trás,
pisei sonho, imagens,
atravessei o lago das miragens,
passei a floresta dos gnomos
e bati-lhe à porta.
Entrei
e só me quedei
quando te vi!
Morto de cansado
ébrio de sede,
a teus pés ajoelhei
e pedi que me desses de beber!
Tu sorriste
Levantaste-te
deste-me a mão,
ajudaste-me
a arrastar os pés p'lo chão!
Depois...
Deste-me a boca,
que beijei com fúria louca
e sinto que adormeci!
Ao acordar,
ébrio ainda de sede de beijos
rompia o alvorecer!
E agora,
que a toda a hora
o coração
me diz que não foi sonho nem visão,
agora,
que a mesma sede me atormenta
e surge a dor,
diz-me que não foi sonho,
meu amor!
Setembro de 1952
António
segunda-feira, 4 de maio de 2015
terça-feira, 17 de março de 2015
Ser Poeta
( Ao António)
Quisera na arte levar a palma
Saber fazer versos a cantar
E por eles poder expressar
O poema que me vai na alma
Ser poeta p'ra cantar ao vento
O ideal que guia esta ansiedade
Ser poeta encantado de saudade
Ter arte, ter fama e ter talento!
Poder cantar com uma voz sonora
Que a minha'alma canta, ri e chora
E gritar bem alto o meu desejo:
Que amo o teu perfil, o teu olhar
E esse teu sorriso de encantar,
Que eu quisera poetizar num beijo!!
Maria Clotilde
17/9/1952
Quisera na arte levar a palma
Saber fazer versos a cantar
E por eles poder expressar
O poema que me vai na alma
Ser poeta p'ra cantar ao vento
O ideal que guia esta ansiedade
Ser poeta encantado de saudade
Ter arte, ter fama e ter talento!
Poder cantar com uma voz sonora
Que a minha'alma canta, ri e chora
E gritar bem alto o meu desejo:
Que amo o teu perfil, o teu olhar
E esse teu sorriso de encantar,
Que eu quisera poetizar num beijo!!
Maria Clotilde
17/9/1952
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