Quando somos crianças, os sons musicais parece que nos entram no ouvido de tal maneira que, mais tarde, ainda os conseguimos cantar e ouvi-los distintamente naquele cantinho da memória a que eu chamo a "sala de música".
Quando eu tinha 3 anos, morava na Rua da Senhora da Glória, à Graça, e os pregões que soavam nas ruas de Lisboa eram sonoros, musicais e traziam uma melodia inesquecível, mas ao mesmo tempo simples e cheia de ternura.
Era o caso do queijo saloio, dos morangos de Sintra, e de um que só se ouvia no princípio da Primavera, que era o do homem que recolhia as cascas das ervilhas e favas e os restos das hortaliças. O pregão era assim:
"Olha a carroça, que leva as folhas, que leva as cascas!"
Só que, por mais que eu procurasse, ele não trazia nenhuma carroça, nem sequer um burro. Era ele que, simplesmente de saca às costas, recolhia os restos que os outros deitavam fora, talvez para alimentar coelhos e outros animais de criação.
A graça está na figura simbólica da carroça, que, pura e simplesmente, não existia...
Também aparecia sempre, ao fim da tarde, um outro homem que apregoava "suspiros de alimança". Isto criou lá em casa um mistério: o que seriam os "suspiros de alimança"? Suspiros sabíamos que eram os tais bolinhos que deixam na boca o sabor de uma ilusão breve que se extingue, agora a "alimança"...O que seria?
Um dia a minha Mãe ouviu com mais atenção e descobriu que o pregão completo era "Suspiros de alimão são a um tostão". Estava desvendado o mistério dos "suspiros de alimança"...
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Do mal o menos ou a história do milagre do Senhor da Piedade
Eu fui, durante anos a fio e desde muito pequena, às festas do S. Mateus, em Elvas. Por ocasião da feira, em Setembro, também se celebravam as festas do Senhor Jesus da Piedade, cuja igreja fica no recinto da Feira. A capela é muito antiga e tem um anexo chamado "a casa dos milagres", onde se guardam as promessas dos fiéis e entre braços e as pernas de cera e as fotografias, há os chamados ex-votos.
Ora entre os muitos ex-votos que cobriam as paredes, o meu pai descobriu uma pintura do século XVIII, que representava uma estrada uma carroça e um homem deitado no chão; por baixo, a seguinte inscrição:
"Milagre que o Senhor da Piedade fez a Braz António, ao qual passando-lhe uma carroça por cima, lhe partiu uma perna, podendo-lhe ter partido as duas".
Assim, tal e qual.
domingo, 28 de setembro de 2008
Dos tecidos
Há dias, passando a ferro um camiseiro ( um termo moderno para designar uma peça de roupa antiga), vi na etiqueta: ""100% viscose". Que será isto? Só o nome dá repugnância!
Quando eu era rapariga, os tecidos tinham outros nomes: percal, gorgorina, piquet, organdi, organza, opal, riscado, chita, popeline, creton, cassa, tobralco...Mais tarde, em cerimónias de casamentos, usei o tafetá, o veludo, o moirée, o crepe georgette, o gorgorão de seda e o cetim sablée, parece que me estou a ver com essas belas roupas, a desfilar nos cortejos das amigas que foram casando!
Quando eu era rapariga, os tecidos tinham outros nomes: percal, gorgorina, piquet, organdi, organza, opal, riscado, chita, popeline, creton, cassa, tobralco...Mais tarde, em cerimónias de casamentos, usei o tafetá, o veludo, o moirée, o crepe georgette, o gorgorão de seda e o cetim sablée, parece que me estou a ver com essas belas roupas, a desfilar nos cortejos das amigas que foram casando!
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Eleutério Barriguinhas Chambel
Nós tivemos um gato, amarelo e branco, que o meu primo Manel apanhou pequenino na estação do comboio e trouxe no bolso para nossa casa.
O gato depressa se fez um bichano gordo e simpático, e o meu irmão Lito tinha por ele um especial carinho, que, aliás, era recíproco. Apesar de ser muito reservado e tímido, o meu irmão ensinou ao gato uma série de habilidades que faziam as delícias dos nossos serões: saltava um fio posto a toda a largura de uma porta, fio esse que ia subindo em altura, tal como a fasquia do salto em altura; se não me engano, chegou aos 90 cm, o que, para um gato, era considerável. Também saltava pelo arco de bastidor (um círculo de madeira onde se punha um pano para bordar), chegando a saltar até por dentro de um aro metálico ao qual o meu irmão pegava fogo.
Por todas estas habilidades era conhecido, e a vizinhança em peso vinha ver os espectáculos do Eleutério, assim baptizado em homenagem a um atleta do Benfica. Tinha por apelido (o gato) Barriguinhas Chambel. O gato seguia o meu irmão por toda a parte e dormia à porta do quarto dele. Quando o Lito adoeceu, mudámos de casa, mas o Eleutério ficou muito habituado à antiga moradia, e fugia para lá muitas vezes. Depois, quando o Lito começou a piorar de dia para dia, o gato nunca mais saiu de casa. Na madrugada anterior à morte do meu irmão, o gato miou tão desesperadamente, que o nosso impedido agarrou nele e o levou para o quartel, onde o fechou numa arrecadação, com água e comida. À tarde mandei buscá-lo, mas o rapaz apareceu-me com lágrimas nos olhos: o bichano estava morto, tal e qual o dono, que tinha morrido às 9 e um quarto da manhã. Quem sabe se morreram à mesma hora do dia 21 de Julho de 1946...
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Cresce depressa...
Chegaste com o fim do Verão,
Quando para mim já era Inverno
Mas trouxeste a Primavera
nos teus olhos "antonicos".
Cresce depressa, meu amor
Cresce depressa
Para veres os poentes e o céu azul
Detrás da nossa casa
Cresce depressa, meu amor
Cresce depressa
Para quando a lua aparecer
Atrás da serra
Te banhar a cara morena
E encher de luz a varanda.
Cresce meu amor,cresce depressa
Que eu já não tenho tempo.
Quando para mim já era Inverno
Mas trouxeste a Primavera
nos teus olhos "antonicos".
Cresce depressa, meu amor
Cresce depressa
Para veres os poentes e o céu azul
Detrás da nossa casa
Cresce depressa, meu amor
Cresce depressa
Para quando a lua aparecer
Atrás da serra
Te banhar a cara morena
E encher de luz a varanda.
Cresce meu amor,cresce depressa
Que eu já não tenho tempo.
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Os submarinos
Não sei para que servirão os submarinos na Marinha Portuguesa. Francamente, não consigo ver para que diabo querem comprar tais bizarmas, ainda para mais tão caras...Será para que futuras batalhas navais? Não sei e, já agora, é verdade que também não me interessa. Mas quem se interessou por esse assunto há muitos anos e perguntou em casa, mais propriamente ao Pai, qual o número de submarinos que tinha a Armada portuguesa, teve uma resposta curiosa:
- Sete e um pequenino - Tal e qual.
Com o espanto nos olhos, sempre tão ávidos de saber, ficou-se por ali, acreditando piamente na resposta. Sete? Sim, porque não?
Mas o pequenino.....Só se fosse para os rios, talvez para estudar a fauna e a flora fluviais....Quem lhe dera ver esse submarino pequenino, que mais devia parecer um brinquedo!
Os anos passaram e já quase mulher feita soube que o Pai lhe tinha dado aquela resposta a brincar, por graça. Não lhe levou a mal. Afinal o Pai, sempre tão sóbrio nas conversas, tinha direito ao seu humor tão peculiar.
O seu coração generoso e crédulo estava sempre pronto para guardar todas as fantasias daquele Pai que brincava quando falava a sério.
- Sete e um pequenino - Tal e qual.
Com o espanto nos olhos, sempre tão ávidos de saber, ficou-se por ali, acreditando piamente na resposta. Sete? Sim, porque não?
Mas o pequenino.....Só se fosse para os rios, talvez para estudar a fauna e a flora fluviais....Quem lhe dera ver esse submarino pequenino, que mais devia parecer um brinquedo!
Os anos passaram e já quase mulher feita soube que o Pai lhe tinha dado aquela resposta a brincar, por graça. Não lhe levou a mal. Afinal o Pai, sempre tão sóbrio nas conversas, tinha direito ao seu humor tão peculiar.
O seu coração generoso e crédulo estava sempre pronto para guardar todas as fantasias daquele Pai que brincava quando falava a sério.
domingo, 7 de setembro de 2008
A escritura
Ela queria o preto no branco, com assinatura e tudo, feito numa repartição pública, para lhe conferir autenticidade. Era assim que a sua cabecinha de 5 anos funcionava.
Uma escritura, era o que ela queria, e para isso perguntava com muita insistência à mãe quando é que iam ao tribunal, com a Sra. Clemência, fazer a escritura, a escritura que lhe iria dar uma avó oficial, uma avó para toda a vida, ela que não tinha conhecido nenhuma.
Quem melhor do que a Sra. Clemência, aquela velhota que tão bem lhe queria, para ser sua avó? Levava-a a correr a vila, ensinava-lhe cantigas e tinha-lhe trazido um gatinho, o "Chica Boa", para ela brincar. Só faltava mesmo a escritura!
A Mãe adiou até que pode a a data da cerimónia, mas um dia teve que lhe dizer abertamente que não era possível e tentar explicar a uma criança as legalidades insensíveis do mundo dos crescidos. O seu raciocínio infantil não pode compreender, a mágoa foi grande e o desgosto perdurou por muito tempo.
A distância separou-a dessa Avó de "faz-de-conta" e, quando ela adoeceu e a quiseram levar a visitar o Asilo, não quis ir.
Teve medo de perder outra avó e preferiu ficar com a recordação intacta da Avó de "escritura".
Uma escritura, era o que ela queria, e para isso perguntava com muita insistência à mãe quando é que iam ao tribunal, com a Sra. Clemência, fazer a escritura, a escritura que lhe iria dar uma avó oficial, uma avó para toda a vida, ela que não tinha conhecido nenhuma.
Quem melhor do que a Sra. Clemência, aquela velhota que tão bem lhe queria, para ser sua avó? Levava-a a correr a vila, ensinava-lhe cantigas e tinha-lhe trazido um gatinho, o "Chica Boa", para ela brincar. Só faltava mesmo a escritura!
A Mãe adiou até que pode a a data da cerimónia, mas um dia teve que lhe dizer abertamente que não era possível e tentar explicar a uma criança as legalidades insensíveis do mundo dos crescidos. O seu raciocínio infantil não pode compreender, a mágoa foi grande e o desgosto perdurou por muito tempo.
A distância separou-a dessa Avó de "faz-de-conta" e, quando ela adoeceu e a quiseram levar a visitar o Asilo, não quis ir.
Teve medo de perder outra avó e preferiu ficar com a recordação intacta da Avó de "escritura".
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