domingo, 7 de setembro de 2008

A escritura

Ela queria o preto no branco, com assinatura e tudo, feito numa repartição pública, para lhe conferir autenticidade. Era assim que a sua cabecinha de 5 anos funcionava.
Uma escritura, era o que ela queria, e para isso perguntava com muita insistência à mãe quando é que iam ao tribunal, com a Sra. Clemência, fazer a escritura, a escritura que lhe iria dar uma avó oficial, uma avó para toda a vida, ela que não tinha conhecido nenhuma.
Quem melhor do que a Sra. Clemência, aquela velhota que tão bem lhe queria, para ser sua avó? Levava-a a correr a vila, ensinava-lhe cantigas e tinha-lhe trazido um gatinho, o "Chica Boa", para ela brincar. Só faltava mesmo a escritura!
A Mãe adiou até que pode a a data da cerimónia, mas um dia teve que lhe dizer abertamente que não era possível e tentar explicar a uma criança as legalidades insensíveis do mundo dos crescidos. O seu raciocínio infantil não pode compreender, a mágoa foi grande e o desgosto perdurou por muito tempo.
A distância separou-a dessa Avó de "faz-de-conta" e, quando ela adoeceu e a quiseram levar a visitar o Asilo, não quis ir.
Teve medo de perder outra avó e preferiu ficar com a recordação intacta da Avó de "escritura".

2 comentários:

Isabel I disse...

E não é que tanto em Almodôvar como em Nisa foram as senhoras Clemencias ,Carolinas, Eulálias, Cristinas que mais nos marcaram, de quem mais gostámos e que mais gostaram de nós? Isabel I

Guilhotina disse...

A Cristina, sem dúvida, foi a que mais me marcou. Bem lembrado, merece um post. Vou falar nisso à minha "sócia"...:)