segunda-feira, 1 de setembro de 2008

A Ursa Maior ao alcance da mão

No Verão de 2005 ele não veio. Já tinha outros interesses, a praia mais cedo, os amigos, as saídas à noite, enfim, tudo próprio dos 17 anos. E Julho, que costumava ser "o nosso mês", passei-o sozinha. Ele preocupou-se: "A Avó vai ficar o mês só, mas não é por mal; combinei umas coisas, tá perceber, mas não é por mal." Tudo isto ao telefone, com aquela voz cheia de modulações e expressiva como nenhuma. E eu: "Está bem, não te preocupes, a avó fica bem, é o tempo que eu gosto e arranjo maneira de o passar."
E ele lá ficou, feliz, pensando que eu também ficava. E fiquei. Só de o saber a fazer o que gosta nas férias me consola, mas são tantas as recordações dos Verões passados aqui em casa, na varanda os dois, ou a vê-lo jogar futebol lá em baixo, sempre a pedir a Deus que não partissem persianas nem nenhum vidro dos carros...Quando ele cá estava, se maior fosse o dia, maior era a romaria! Os jantares na varanda, a televisão, as histórias do bisavô, e altas horas as mais inacreditáveis perguntas: "Avó, como se chamava o seu professor de Português?"
Claro que estranhei, ele fazia uma bela companhia porque se divertia e me divertia, e mesmo quando gritávamos os dois acabava tudo às gargalhadas. Para mim, esses verões foram uma terapia e penso que, mais tarde, ele também os recordará.
À noite, na varanda da cozinha, com o céu azul escuro por cima de nós, a dizer os nomes das estrelas e planetas, a adivinhar constelações, ele tinha sempre uma piada: "A Ursa Menor é filha da Ursa Maior? Que grandes ursas!" E estendia o braço para as tocar, com a ingenuidade e o humor tão próprios da idade. Ele é o Luís e eu sou a avó, e tínhamos os dois a Ursa Maior ao alcance da mão...

5 comentários:

Isabel I disse...

xiQue bela ideia fazer um blog com os escritos da mãe! É claro que já os conheço mas lidos aqui têm um sabor diferente. E talvez um dia a gente os consiga imprimir mesmo até publicá-los. Em nome da minha mãe, obrigada Sação. Isabel I

Guilhotina disse...

Ela merece, tal como nós bem sabemos...

Liliana disse...

que linda hístórias...Fico arrepiada. Que ternura este amor de avó..Faz-me lembrar a minha avó que perdi à 2 anos...
Continue a deliciar-nos com este carinho...

Sandra disse...

Que bonita, a sua forma de escrever...
Adorei principalmente esta história, a saudade da casa cheia sem ficar sentida dos filhos e netos crescerem. Tenho a certeza que esses momentos foram fundamentais na formação do seu neto.

Guilhotina disse...

Lili e Sandra, obrigada por gostarem. Continuem a aparecer por aqui!