domingo, 14 de dezembro de 2008

O comunista

Por volta de 1943 ou 1944 esteve em nossa casa uma personagem à qual eu baptizei de "o comunista", de tal modo que para mim, durante muitos anos, um comunista era um homem que se vestia de castanho, usava chapéu e tinha um ar misterioso.
Esse homem chegou a nossa casa recomendado pelo meu tio Aníbal, e ficou conosco uns dois dias. Durante esse tempo, esteve quase sempre fechado com o meu pai na sala e foi de relance que o vi. Quem era? Nunca soube, apenas percebi que o tratavam por Sr. Mata. Foi-se embora como chegou, cercado de mistério e silêncio. Na manhã em que partiu levava uma pequena mala, o chapéu e o tal fato castanho. Mais tarde vim a saber que era um ferroviário militante do Partido Comunista, que estava em fuga para o estrangeiro. Se conseguiu ou não, ou se o verdadeiro nome dele era mesmo Mata, ninguém soube...

Cinema paraíso

Em garota tive pretensões a actriz, como quase todas as raparigas: copiava as roupas e os penteados das vedetas e cheguei a mandar fazer uma camisola igualzinha à que a Anne Blith vestia na capa da revista "Cena Muda"; também conseguia dar ao meu cabelo aquela queda em onda larga do lado direito, tal e qual a Veronika Lake...
Ainda cheguei a ver cinema mudo, no Cinema Royal, em Lisboa, e depois em Runa, onde o meu pai prestava serviço militar no Asilo dos Inválidos do Exército. Num barracão improvisado em sala de cinema, vi filmes da Shirley Temple e do Charlot comentados pelo projeccionista. Quantas lágrimas me fizeram chorar aquelas cenas a que os comentários emprestavam um dramatismo ingénuo, tão próprio daqueles tempos!
Mais tarde, menina e moça na minha cidade, punha o melhor vestido para ir às matinés; no Verão, o cinema era ao ar livre, em cadeiras muito duras, pelo que muitas vezes levavámos cadeiras confortáveis de casa. Nos intervalos (todos os filmes tinham intervalo), aproveitámos para conversar e catrapiscar alguém. Foi assim que vi todos os grandes filmes dos anos 30 e 40, mas recordo especialmente, pela ternura e pela ingenuidade, os filmes da série da Família Hardy, com o Mickey Rooney e a Judy Garland.
Até hoje, só a magia renovada do cinema me conseguiu transmitir o fascínio que me toca e me enche de emoção.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Saltimbancos, ou "la strada" à portuguesa

Numa feira de uma cidade de província, no final da década de 1930, um homem corpulento, de calças largas e colete, segurava uma corrente que prendia um urso castanho. O animal dançava e rebolava no chão, obedecendo à voz do dono, que lhe dizia "Dança, Mariana!"; uma mulher de pele escura, com um lenço de onde pendiam medalhas amarrado na testa, tocava pandeireta, marcando o ritmo da dança. Mais à frente, ficava a barraca dos "Robertos", os fantoches, com as suas personagens: o Zé Broa, o Diabo, A Mulher Mal Casada, o Padre, que actuavam num palco de onde pendia um pano de ramagens.
O que mais me impressionava era o número da cabra subida no gargalo de uma garrafa, não pela dificuldade, mas sim pelo animal e pelas gentes que a exibiam, gente pobre, cujo chamariz para o espectáculo era um toque de corneta, ao mesmo tempo que uma garota magrita fazia piruetas num tapete verde desbotado.
Era frequente haver anões nessas troupes de saltimbancos, e lembro-me que o meu primo Jorge uma vez fez uma tremenda birra, porque queria que a mãe levasse um desses anões para lhe dar de comer. "Assim ele crescia, mamã..."

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

O Cheiro da Cidade

Era um cheiro a humidade e a pinheiro
E também a cortiça requeimada
Vinha no vento e ficava o dia inteiro
O cheiro da minha cidade tão amada.

Agarrou-se à minha pele e perdurou
Levei-o para Sul. Quase o esqueci.
Quando voltei, ele também voltou
A esta terra donde jamais parti.

Este Natal senti-o novamente,
Manhã cedo descendo a avenida,
Tal como outrora sentia o coração.

Era o Inverno, agora mansamente,
Entrando afinal na minha vida
Como entrou, pé ante pé, a solidão.

domingo, 26 de outubro de 2008

Distraída

Disse hoje de mim para mim:
Que dia é hoje? Que mês? Que ano?
É Janeiro, oitenta e três, vinte e tantos...Suponho...
Que eu, às vezes, nem sei às quantas ando...
Mas ralar, eu não me ralo,
Porque o tempo vai passando
Mesmo que eu não queira,
O tempo vai passando
De qualquer maneira.
E se passou o tempo! Se passou...
Foram cinquenta anos já passados
E vividos, vividos a viver,
Sem amargura e sem saudade
Porque os vivi a valer.
Não tenho pena das coisas que passaram
E que não me agradaram. Já as esqueci.
As boas, essas, estão comigo
Porque as vivi.
Agora mais do que nunca quero viver
Quero dizer que sim à vida
Todo o dia, todo o mês e todo o ano.
E não me importo que digam que estou velha
Porque eu não estou
Porque eu não quero.
Fico nos cinquenta só
Mas não me esquecerei todos os anos de fazer anos
Porque eu sou distraída
E às vezes esqueço-me
Que já sou Avó!

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Pregões

Quando somos crianças, os sons musicais parece que nos entram no ouvido de tal maneira que, mais tarde, ainda os conseguimos cantar e ouvi-los distintamente naquele cantinho da memória a que eu chamo a "sala de música".
Quando eu tinha 3 anos, morava na Rua da Senhora da Glória, à Graça, e os pregões que soavam nas ruas de Lisboa eram sonoros, musicais e traziam uma melodia inesquecível, mas ao mesmo tempo simples e cheia de ternura.
Era o caso do queijo saloio, dos morangos de Sintra, e de um que só se ouvia no princípio da Primavera, que era o do homem que recolhia as cascas das ervilhas e favas e os restos das hortaliças. O pregão era assim:
"Olha a carroça, que leva as folhas, que leva as cascas!"
Só que, por mais que eu procurasse, ele não trazia nenhuma carroça, nem sequer um burro. Era ele que, simplesmente de saca às costas, recolhia os restos que os outros deitavam fora, talvez para alimentar coelhos e outros animais de criação.
A graça está na figura simbólica da carroça, que, pura e simplesmente, não existia...
Também aparecia sempre, ao fim da tarde, um outro homem que apregoava "suspiros de alimança". Isto criou lá em casa um mistério: o que seriam os "suspiros de alimança"? Suspiros sabíamos que eram os tais bolinhos que deixam na boca o sabor de uma ilusão breve que se extingue, agora a "alimança"...O que seria?
Um dia a minha Mãe ouviu com mais atenção e descobriu que o pregão completo era "Suspiros de alimão são a um tostão". Estava desvendado o mistério dos "suspiros de alimança"...

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Do mal o menos ou a história do milagre do Senhor da Piedade

Eu fui, durante anos a fio e desde muito pequena, às festas do S. Mateus, em Elvas. Por ocasião da feira, em Setembro, também se celebravam as festas do Senhor Jesus da Piedade, cuja igreja fica no recinto da Feira. A capela é muito antiga e tem um anexo chamado "a casa dos milagres", onde se guardam as promessas dos fiéis e entre braços e as pernas de cera e as fotografias, há os chamados ex-votos.
Ora entre os muitos ex-votos que cobriam as paredes, o meu pai descobriu uma pintura do século XVIII, que representava uma estrada uma carroça e um homem deitado no chão; por baixo, a seguinte inscrição:
"Milagre que o Senhor da Piedade fez a Braz António, ao qual passando-lhe uma carroça por cima, lhe partiu uma perna, podendo-lhe ter partido as duas".
Assim, tal e qual.